A luta das mulheres por direitos, embora seja antiga, ainda conserva uma extensa pauta de reivindicações. É preciso eliminar a violência e o assédio sexual nas relações de trabalho. Necessitamos de segurança para circular pelas ruas sem medo de ofensas e estupros. Queremos salários iguais e condições de trabalho que nos permitam desenvolver nossas atividades laborais. Portanto, nós, mulheres, exigimos tratamento justo. Afinal, apesar de sermos maioria nas escolas e nas universidades, recebemos menos que os homens com a mesma escolaridade e desempenhando as mesmas funções. Temos direito ao voto, somos a maioria da população, mas não participamos de cargos de decisão na política e nas instituições.

Apesar de continuarmos lutando pelas mesmas causas, para algumas pesquisadoras pode-se afirmar que avançamos em alguns aspectos. Neiva Flávia de Oliveira, professora da Faculdade de Direito da UFU e coordenadora do Escritório de Assessoria Jurídica Popular da universidade (Esajup), lembra etapas importantes desse processo, como a realização e ratificação de convenções internacionais, além da promulgação da Constituição Federal Brasileira que determina a igualdade entre homens e mulheres. “Existe a Lei Maria da Penha e, mais recentemente, a Lei de Feminicídio, que são um reconhecimento pelo Estado de que as mulheres são assassinadas por serem mulheres”, afirma. Oliveira explica que, enquanto os homens são mortos por pessoas desconhecidas, no caso das mulheres, geralmente, os assassinos são seus próprios companheiros.

A mulher e a universidade

A primeira mulher brasileira a se formar em uma universidade do país o fez no ano de 1887, de acordo com pesquisa desenvolvida por Nailda Marinho, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Desta forma, Rita Lobato Velho Lopes é a primeira mulher, nascida no Brasil, a se graduar no país pela Faculdade de Medicina da Bahia.

Efetivamente, de acordo com Oliveira, é importante registrar que as mulheres ingressaram verdadeiramente nas universidades no século passado. Esse ingresso foi uma conquista e, segundo a professora, “a gente tem que pensar que, para o homem, aí numa questão de gênero, quando esse espaço - o da universidade - é reduzido, existe uma reação a essa redução, e essa reação, por uma questão cultural, acaba sendo violenta. Que tipo de agressão? O assédio sexual, a ofensa, as piadas machistas”, assegura Oliveira. A docente alega ainda que este é o problema hoje nas universidades: não possuir um ambiente de estudo equilibrado, justo, sem assédio e discriminação para alunas, professoras e técnicas.

Na UFU somos, ao todo, 5.125 servidores (mulheres e homens). Desse total, 2.725 são mulheres (53%). Na categoria docente, a maioria é homem (55%). Com relação aos discentes, quando observamos o perfil dos graduandos da UFU, constatamos que 50% são mulheres e 50% homens. Porém, ao verificarmos as pós-graduações, a maioria é mulher (55%).

O que a UFU tem feito para que estudantes e profissionais sintam-se acolhidas? Existe uma política de gênero e combate à violência contra a mulher na universidade pautada no Conselho Universitário (Consun). O documento ainda não passou pela apreciação dos conselheiros. Mas, a partir de sua aprovação, haverá uma ouvidoria especializada para atender as mulheres. Oliveira elucida: “se uma aluna denuncia um professor, quando isso vai para ser processado, ela fica cara a cara com esse professor; é óbvio que na esfera de poder e de relação isso não deveria ser permitido. Porque ela precisa continuar, ela precisa se formar, então se cria uma cultura de medo. Essas vítimas pensam ‘não vou denunciar porque e depois? Melhor eu me calar diante de uma assédio, me calar, às vezes, até diante de um estupro, do que correr um risco de não me formar’”.

Para denunciar o assédio existe o Acolhidas, projeto de extensão que visa lutar contra a violência de gênero dentro da UFU. A ouvidoria Acolhidas atende todas as quartas-feiras das 14h às 16h no 2º andar do Esajup, bloco 5V, Campus Santa Mônica. Também é possível denunciar pelo email: acolhidas.ouvidoria@gmail.com .

O Estudo de Gênero e as lutas da mulher na universidade

Em 1992, foi criado o Núcleo de Estudos de Gênero (Neguem), ligado ao Centro de Documentação e Pesquisa em História (Cdhis) do Instituto de História da UFU, com o objetivo de problematizar, estudar e refletir sobre as pesquisas de gênero. A iniciativa de criar o núcleo surgiu de um grupo de professoras, em sua maioria, do antigo Departamento de História. Elas  mobilizaram-se a partir da agenda do governo nas universidades públicas que colocavam a temática da mulher para ser pesquisada pelos docentes. O grupo tem reuniões quinzenais para estruturar as linhas de pesquisa, realizar produções acadêmicas e publicar seus estudos na revista Caderno Espaço Feminino.

A partir do Neguem, conseguiu-se introduzir a disciplina “História da mulher e relações de gêneros” no curso de Psicologia da UFU, segundo Jane de Fátima Silva Rodrigues, docente do Instituto de História e uma das fundadoras do núcleo. “Ficamos 5 anos ministrando essa disciplina. Com esse crescimento, passamos a ter assento nos diversos setores da sociedade uberlandense. Por exemplo, ajudamos a criar o Conselho Municipal de Direito das Mulheres e estivemos junto à criação do SOS Mulher Família, atuando com entidades que estavam trabalhando com a mulher”, relata Rodrigues.

O Neguem estuda não somente a questão da violência contra as mulheres, mas analisa e evidencia outras temáticas, como a cota de gênero com a finalidade eleitoral. A mulher atualmente representa mais de 52% do eleitorado brasileiro e mais de 51% da população do país, porém ainda não ocupa postos de decisão. “Haja vista que nunca tivemos uma reitora na UFU. Se você verificar junto ao poder público, quantas secretarias temos no governo municipal e quantas são ocupadas por mulheres? Eu acredito que esse impacto vá sendo consolidado à medida que mais pessoas forem atingidas pela nossa proposta de pesquisa e extensão dentro do Neguem”, exemplifica Rodrigues.

Ao abordar o futuro do estudo e busca pela igualdade de gênero, Rodrigues destaca: “essa tão propalada ideologia de gênero, como se o gênero viesse destruir a família brasileira, tem sido um desafio”. A proposta do gênero enquanto uma categoria da análise nas relações entre sexos busca tornar visíveis as questões vivenciadas por mulheres - sejam brancas, negras, de classe alta, média, baixa – e por isso utilizamos o plural, porque não há um segmento feminino ou um modelo de mulher.

“Esse nosso trabalho pode não gerar resultados numéricos, mas o resultado é no sentido de empoderar as mulheres, bem como  permitir que instituições e organizações não governamentais que trabalhem com a temática se sintam também amparados teoricamente e com aspectos pontuais para argumentar sobre o assunto”, finaliza Rodrigues.

Fonte: UFU